Desenvolvimento dos cachorros e cuidados a ter com eles

Do nascimento até às 4 semanas de vida

Nas duas primeiras semanas de vida, os cachorros estão completamente dependentes da sua mãe, sendo esta a responsável por lhes proporcionar alimento e calor, e por mantê-los limpos. A principal atividade dos cachorros nesta fase é dormir, acordando apenas para mamar, aproximadamente a cada 3 horas. A mãe, por sua vez, passa grande parte do seu tempo a lamber os seus filhotes, para que estes se mantenham limpos e para estimular a sua eliminação. Na ausência da mãe, o tutor deve estimular a região urogenital com uma compressa humedecida para que o cachorro consiga urinar e defecar. Em situações nas quais a mamã não esteja a amamentar ou em ninhadas com muitos cachorros, é recomendável que o dono alimente os cachorrinhos com leite de substituição específico para cães.

A partir das 2 semanas de vida, os cachorros já têm os olhos abertos e já ouvem melhor, estando mais atentos ao mundo em seu redor e interagindo mais com os seus irmãos e com a sua mãe. Nesta fase, é importante que sejam todos desparasitados internamente (mamã e filhotes). A desparasitação interna deve ser repetida a cada 15 dias até os cachorros terem 3 meses.

Das 4 às 8 semanas de vida

Durante esta etapa, a mãe começa a passar períodos mais prolongados fora do ninho, aumentando-os progressivamente, o que coincide com o desmame, que ocorre por volta das 6 semanas. Nesta fase, é importante oferecer aos cachorros ração especifica para a sua idade para que se comecem a adaptar, podendo esta alimentação ser intercalada com o leite materno durante a fase de desmame.

É importante referir que a partir das 6 semanas, já pode ser iniciado o protocolo vacinal nos cachorros, essencial na prevenção de várias doenças infecto contagiosas.

A partir das 8 semanas

Nesta fase, os cachorros são autónomos relativamente à alimentação, regulação da temperatura e eliminação. É nesta altura que estão mais permeáveis para o reconhecimento e aceitação das várias espécies, assim como de diferentes estímulos visuais e sonoros. É importante investir numa correta socialização do cachorro, para que cresça e se torne um adulto tranquilo e saudável. Aproveite esta fase para intercalar brincadeiras com treinos de obediência e siga as indicações do médico veterinário habitual no que diz respeito ao protocolo de vacinas e desparasitações.

O seu pequenote vai crescer num abrir e fechar de olhos, por isso, não hesite em desfrutar desta fase maravilhosa com ele.

 

Sara Alves

Médica Veterinária de Animais de Companhia

Dermatite canina: diagnóstico e tratamento

O que é a dermatite canina?

A dermatite canina é uma inflamação da pele. Normalmente é uma manifestação de uma patologia e pode caracterizar-se por lesões isoladas ou várias lesões por todo o corpo. Muitas vezes estão acompanhadas de comichão (prurido) ou perda de pêlo que são os grandes sinais de alerta para os donos. A pele do seu cão pode ficar vermelha (eritematosa), ficar sem pêlo (alopécia), ter borbulhas (pústulas), ter sangue e pús no pêlo numa zona restrita (hotspot), crostas, entre outras.

Causas da dermatite canina?

Existem várias causas para a dermatite canina e podemos dividir em pruriginosas (quando causam comichão) ou não pruriginosas (quando não causam comichão). Nas causas pruriginosas encontram-se:

  • Alérgica: principalmente ambientais ou alimentares. Nas alergias ambientais o animal reage a um alergénio presente no meio ambiente como ácaros, pólen, gramíneas, entre outros. Normalmente é sazonal, sendo a Primavera e o Outono as piores épocas do ano. Nas alergias alimentares o cão reage a uma fonte de proteína da ração ou outro componente, como por exemplo o trigo. Ambas se caracterizam por muita comichão e vermelhidão em zonas como as axilas, virilhas, zona entre os dedos e almofadas plantares, abdómen, cabeça e orelhas.
  • Presença de ectoparasitas: o ectoparasita mais comum nos cães é a pulga. As zonas preferenciais da pulga no corpo deles são o abdómen, à volta do pescoço e na zona lombar perto da cauda. Os cães podem ser alérgicos à picada da pulga e desenvolver uma dermatite alérgica local.
  • Sarnas: as duas principais sarnas causadoras de prurido são as provocadas pelos ácaros Sarcoptes e a Cheyletiella. O primeiro é considerado uma zoonose, ou seja, pode ser transmitido ao humano. As lesões mais comuns no cão são junto às orelhas, membros e abdómen. A segunda é caracterizada por caspa e crostas por toda a zona das costas e ombros. Ambas podem ser transmitidas entre animais.
  • Infeção secundária: sempre que há uma zona com infeção bacteriana ou por levedura, esta vai causar prurido e agravar a lesão. Se houver contaminação bacteriana é comum haver zonas circunscritas com pus (pústulas), crostas ou pus espalhado no pêlo. Quando causada por Malassezia, uma levedura oportunista, o cão tem lesões em zonas pouco arejadas como entre os dedos, entre almofadas plantares, zona interna da coxa e axilar, e a pele fica com um tom mais escuro que o normal. A infeção raramente é primária, sendo quase sempre secundária por aproveitamento das bactérias ou leveduras na zona que está frágil e húmida por outros motivos.

Na causas não pruriginosas, encontram-se:

  • Fungo: transmitida por outros animais ou pelo ambiente, a dermatofitose é uma causa frequente de dermatite em cães. Normalmente caracterizada por lesões circulares sem pelo com um aro vermelho. Não costumam dar comichão a menos que haja infeção secundária. Pode ser transmitida ao humano.
  • Sarna demodécica: provocada pelo ácaro Demodex pode ser transmitida geralmente pela mãe aos seus bebés. As lesões que a caracterizam são zonas sem pêlo pelo corpo todo, geralmente em alturas de maior stress como o cio.
  • Patologias endócrinas: algumas patologias como hipotiroidismo ou hiperadrenocorticismo podem cursar com locais extensos sem pelo na zona lombar, dorsal e na cauda. Não provocam prurido a menos que haja contaminação bacteriana secundária.

Alergia ou infeção?

Quando o cão tem sintomatologia de dermatite é importante perceber se está com infeção. A manifestação simples de alergia dá-se maioritariamente por comichão e eritema da pele sem mais lesões associadas. Por outro lado, os principais sinais de infeção são além da vermelhidão da pele, a presença de pús em lesões circulares como borbulhas (pústulas), pús espalhado pelo pêlo na zona das lesões e crostas. Podem também surgir zonas de pele mais escuras. Caso se verifiquem estas dermatites é muito importante indentificá-las e tratá-las primeiro e depois estabelecer a sua causa primária.

Como diagnosticar a dermatite canina?

O diagnóstico da dermatite canina faz-se maioritariamente por observação do animal em exame dermatológico das lesões descritas acima. No entanto, o diagnóstico da dermatite não é suficiente, temos que atentar a alguns elementos da história clínica para estabelecer sua a causa:

  • Quando começou a comichão? Antes ou depois do aparecimento das lesões?
  • Em que idade surgiu? Qual a raça do animal?
  • A desparasitação externa está em dia? Costuma ser feita com que produto?
  • Há mais animais na ninhada ou em casa com a mesma sintomatologia?
  • Há humanos com lesões?
  • Há alturas do ano em que apareçam preferencialmente, ou seja, há sazonalidade?

Estas questões já nos vão ajudar a direcionar para a causa. Podem ser necessários alguns exames para ajudar na confirmação da causa suspeita:

  • Dermatite bacteriana/por Malassezia: recolha de material das zonas afetadas com zaragatoa e visualização ao microscópio de agentes bacterianos, da levedura ou células de defesa.
  • Alergias: despiste de alergénios ambientais ou alimentares recorrendo a análises de sangue.
  • Sarnas: raspagens da pele afetada/colheita de parte da descamação e crostas e observação ao microscópio do ácaro.
  • Fungo: observação com Lâmpada de Wood que permite ver uma fluorescência em zonas afetadas com fungo e colheita de pelo para cultura de dermatófitos.
  • Patologias endócrinas: colheita de sangue para análises direcionadas para as suspeitas.

Tratar a dermatite canina

Caso tenhamos sinais de dermatite bacteriana ou por Malassezia, esta deve ser de imediato tratada. Podemos recorrer a antibiótico ou antifúngicos orais, respetivamente, e tratamento local (tópico) com limpezas, aplicação de pomadas que podem ter antibiótico e anti-inflamatório ou anti-fúngico e até banhos com shampoo de tratamento.
Em relação aos ectoparasitas e as sarnas, após confirmação, deve ser instaurado plano de desparasitação externa com cobertura para os agentes identificados.
Nas alergias ambientais ou alimentares, serão necessários “trials” com ração específica como “grain free” (sem cereais) ou hipoalergénica caso seja necessário mudar a fonte de proteína e proceder à sua hidrolização para a tornar mais aceitável. Permanecendo a causa ambiental podem ser necessárias medicações para diminuir o prurido ou outras soluções como a imunização recorrendo a injetáveis como vacinas, após identificados os agentes que estão a provocar a alergia. É importante também o uso de shampoos de tratamento que ajudem a acalmar a pele.
Nas dermatofitoses (dermatite provocadas por fungos) podem ser necessários banhos com shampoo de tratamento específico, aplicação de pomadas e, eventualmente, tratamento com anti-fúngicos orais.
Nas causas endócrinas, após confirmação da patologia de base, deve ser iniciado tratamento descrito nesse sentido que, normalmente, passa por medicação oral crónica.

Se notar que o seu cão tem alguma lesão na pele ou que se está a coçar mais que o habitual, este é um sinal de que pode avizinhar-se uma dermatite canina. Nesta situação deve agendar consulta com o médico veterinário habitual assim que possível.

Joana Silva

Médica Veterinária

Febre da carraça

O que é?

A febre da carraça, tal como o nome indica, é uma doença que pode ser transmitida aos cães e aos seres humanos após a picada da carraça. A doença é causada por uma série de agentes etiológicos que podem estar presentes na carraça, sendo as principais Ehrliquia spp, Babesia spp e a Rickettsia spp. Regra geral, infectam os glóbulos brancos ou vermelhos, causando a sua destruição.

Sintomas da febre da carraça

Os sintomas são normalmente muito inespecíficos e podem incluir febre, prostração, inapetência, falta de apetite, mucosas pálidas, gânglios linfáticos aumentados, dificuldades de locomoção, entre outros. Em casos mais graves pode mesmo desenvolver-se insuficiência renal e icterícia. Pelo facto de serem sinais comuns a muitas doenças, o seu diagnóstico torna-se por vezes mais complicado e demorado, o que permite a evolução da doença.

Tratamento da febre da carraça

O tratamento inclui sempre a administração de antibióticos adequados, de acordo com o agente etiológico e durante um longo período de tempo. No entanto, muitas vezes isto não é suficiente e é necessário internamento (para corrigir a desidratação e nutrir o animal) e, em casos mais graves, pode até ser necessária uma transfusão sanguínea.

Transmissão ao Homem

A febre da carraça é uma zoonose, ou seja, uma doença que pode afetar tanto seres humanos como animais. Apesar de os cães não transmitirem diretamente a doença ao Homem, podem ser reservatórios das carraças que, ao picar o Homem, podem acabar por lhe transmitir a doença.

Prevenção e controlo

No que diz respeito à febre da carraça, a prevenção deverá ser a palavra chave. Trata-se de uma patologia bastante grave e cuja prevenção é relativamente simples. A desparasitação externa é o ponto fulcral na prevenção desta doença. A desparasitação deve ser particularmente rigorosa na primavera, verão e outono mas nunca deve ser descorada em nenhuma altura do ano. No que diz respeito à desparasitação externa, pode optar por pipetas, coleiras ou comprimidos, atendendo sempre à duração do mesmo e à recomendação do seu médico veterinário, uma vez que, dependendo da área geográfica, há produtos que funcionam melhor que outros.

É muito importante que caso veja alguma carraça no seu animal, a retire corretamente, esteja muito atento ao desenvolvimento de potenciais sinais clínicos e, caso tal aconteça, se dirija de imediato ao médico veterinário.

 

Ana Cláudia Gonçalves

Médica Veterinária de Animais de Companhia

Vacinação antirrábica: O que é?

Porquê que vacinar o seu patudo contra a raiva é importante?

Houveram casos em 2011 e 2012 em Portugal, mas os doentes que faleceram eram provenientes de países onde a raiva é enzoótica. Estes casos vieram evidenciar a possibilidade de importação de doença no contexto da mobilidade de pessoas oriundas de países com raiva! Portanto, apesar de em Portugal esta doença estar erradica, continuar a vacinar os nossos cães é fundamental para continuarmos um país isento de raiva.

Como funcionam as vacinas antirrábicas?

No geral, todas as vacinas contêm uma pequena proporção de organismos vivos ou mortos. Estes, quando entram no animal, desencadeiam uma resposta por parte do sistema imunitário de modo a proteger o animal contra infecções futuras causadas por esse organismo. Mas só os animais saudáveis é que têm capacidade de produzir uma resposta imunológica correcta! Por isso é que em cada vacina o animal tem de ser avaliado clinicamente por um Médico Veterinário.

As vacinas contra a raiva para cães podem ser administridas a partir das 12 semanas de vida. Antes disso não é eficaz já que os anticorpos maternos neutralizam o efeito da vacina.  O cão encontra-se protegido 21 dias após a vacinação.

A primeira administração da vacina tem a duração de 1 ano. Após o primeiro reforço anual, e dependendo da marca do fabricante da vacina, os reforços passam a ser trianuais.

A vacina da raiva é também a vacina obrigatória por lei em quase todos os países do mundo, pelo que se pretender viajar com o seu patudo, terá de a ter em dia!

E uma curiosidade?

Foi Louis Pasteur quem descobriu e criou a primeira vacina contra a raiva 😊 Iniciando o processo mundial de erradicação de uma doença extremamente mortal.

 

Ana Pinto

Médica Veterinária de Animais de Companhia

Epilepsia canina: quais os sintomas

Em que consiste a epilepsia canina?

A epilepsia é uma condição crónica caracterizada por uma actividade eléctrica excessiva e anormal do cérebro, que desencadeia mudanças repentinas e breves no comportamento e/ou movimento do cão – convulsões.

Quais os sintomas da epilepsia canina?

Os ataques epilépticos variam à medida que o cão atravessa diferentes fases:

  • Pré-ictus: período que precede a convulsão e pode ser tão rápido ao ponto de o tutor não se aperceber. Também pode durar alguns dias. Nesta fase, o animal mantém-se agitado, inquieto, podendo mesmo demonstrar comportamentos de medo.
  • Aura: sensação que experimentam imediatamente antes da convulsão. Os cães podem vomitar, urinar e salivar excessivamente. Ocorrem, por vezes, comportamentos atípicos como caminhar, lamber ou ladrar obsessivamente.
  • Ictus: momento em que se dá a convulsão. Geralmente as convulsões duram menos de 2 minutos. Podem apresentar-se de variadas formas. O cão pode perder a consciência, ficar rígido, iniciar movimentos rítmicos e rápidos (como pedalar) ou perder o seu tónus muscular e colapsar.
  • Pós-ictus: fase após a convulsão, na qual os animais demonstram agressividade, agitação, perda de visão, micção inapropriada, sede e fome. Esta etapa pode durar horas.

São estas 4 fases que nos permitem distinguir uma convulsão e ataque epiléptico, de outros eventos episódicos como síncopes ou fraqueza muscular!

Que tipo de convulsões existem?

  • Convulsões focais: afectam metade do cérebro. Os cães podem apresentar contracções faciais ou de pequenos grupos musculares.
  • Convulsões generalizadas: afectam ambos os hemisférios cerebrais. Os cães perdem a consciência, podendo salivar, urinar e defecar. Durante estes ataques, o seu corpo pode ficar rígido ou flácido, e iniciar movimentos bruscos.
  • Convulsões mistas: têm inicio com uma crise focal que evolui para convulsão generalizada. É o tipo mais comum de ataque epiléptico em cães.

Quais os tipos de epilepsia e suas causas?

A doença pode ser genética ou adquirida (secundária a alterações estruturais cerebrais ou tóxicos). Dessa forma, distinguem-se 3 subtipos de epilepsia:

  1. Epilepsia idiopática/primária manifesta-se entre o primeiro e sexto ano de vida dos cães, sendo o seu diagnóstico feito por exclusão de doença reactiva ou estrutural. É diagnosticada recorrendo a exames como Rx, ecografia, análises sanguíneas , TAC ou Ressonância Magnética, entre outros. Geralmente está associada a, pelo menos, dois episódios convulsivos com mais de 24h de intervalo entre eles, e pela ausência de alterações neurológicas no período entre convulsões. Não se conhece a sua causa, mas pensa-se que poderá ter componente hereditário. As raças mais predispostas são o Beagle, o Boxer, o Golden e Labrador Retriever, e o Pastor Alemão.
  2. Epilepsia estrutural, cujas convulsões são resultado de doenças intra-craneanas ou cerebrais, como alterações vasculares, inflamatórias, infecciosas, tumorais ou degenerativas.
  3. Epilepsia reactiva é secundária a tóxicos (ex: pesticidas) ou alterações metabólicas (ex: insuficiência hepática). Neste caso, conseguimos reverter as convulsões, controlando a causa primária.

Os cães com epilepsia podem ter uma vida normal, mas é importante serem avaliados pelo Médico Veterinário, de forma a iniciarem o tratamento correcto. Este é considerado bem sucedido caso a medicação reduza a frequência de ataques, pelo menos, para metade. Em situações pontuais e mais graves poderá ser necessário hospitalizar o paciente com vista a monitorizar e a controlar devidamente as convulsões.

Ana Matias

Médica Veterinária

Mordida de cão: o que fazer?

O que fazer se fui mordido por um cão?

Os locais mais comuns para a mordida de cão são aqueles com que facilmente interagimos com os eles: as mãos, braços, pernas e pés. A mordida de cão pode ir desde uma lesão mais simples, como arranhões, até lesões mais graves com laceração da pele e envolvimento de tecidos como músculo, tendões e até ossos.

  • Sem perfuração da pele: deverá fazer uma boa lavagem da zona com água abundante e sabão e vigiar bem a zona.
  • Lesões com perfuração de pele simples (local da pressão dos dentes por exemplo): deve igualmente lavar bem a zona com água e sabão, pressionar as zonas à volta das perfurações para tentar que saia toda a sujidade do interior e vigiar muito bem nos minutos seguintes.
  • Lacerações da pele com extensão/exposição de músculo, tendões ou mesmo ossos: deve ser imediatamente visto por um médico para efetuar uma correta desinfeção e reconstrução dos tecidos.

Deve também identificar o cão que o mordeu: é muito importante saber se o cão está corretamente vacinado, especialmente contra a Raiva que é a principal doença que pode ser transmitida numa mordida.

Quais os sintomas que podem surgir após uma mordida?

Além da Raiva ser o maior perigo na mordida de cão para saúde humana, também devemos ter em consideração que a boca dos cães pode ter muitas bactérias e serem motivo de infeção aquando de uma mordida.

Se se tratar de uma lesão sem perfuração de pele ou perfuração simples, que não careceu de imediato de visita ao médico, é muito importante vigiar bem a zona nos momentos seguintes. A zona pode inchar, ficar muito vermelhadolorosa e até ter sinais de pus. Pode também sentir-se febril e com aumento dos gânglios linfáticos regionais. Se qualquer um dos sinais antes descritos acontecer deve ser visto imediatamente por um médico uma vez que podem ter que ser receitados, após correta avaliação, antibiótico e anti-inflamatório.

Se o cão for vacinado transmite doenças?

O facto de o cão estar corretamente vacinado é sempre uma segurança em relação ao seu potencial perigo como transmissor de doença, no entanto não devemos igualmente descurar essa possibilidade. Por isso é importante identificar o animal para que ele seja criteriosamente observado nos 15 dias seguintes ao da mordida a fim de identificar quaisquer sinais de doença nele.

Não devemos esquecer da possibilidade de transmissão de algum agente infeccioso, principalmente bacteriano, presente na boca do cão no ato da mordida que, não sendo uma doença em si, pode acarretar cuidados especiais como já referido acima.

E se o cão morder um bebé, uma grávida ou outro animal?

Se o cão morder outro animal este deve ser imediatamente visto pelo médico veterinário. O pêlo pode esconder lesões principalmente perfurantes por isso deve ser cuidadosamente observado por um médico veterinário para identificar todas as zonas e iniciar tratamento.

Se um cão morder um bebé ou uma pessoa grávida ou por exemplo imunocomprometida (em tratamento quimioterápico por exemplo), por mais pequena que pareça a lesão, deve ser vista de imediato por um médico para avaliar a situação.

Podem ser simples ou virem a revelar-se situações graves e que põe em risco a saúde humana, as mordidas de cão devem por isso ser sempre bem acompanhadas sem relativizar qualquer sintoma que surja.

Joana Silva

Médica Veterinária

Piómetra em cadelas: Causas, sintomas e tratamento

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Quais são as causas de uma piómetra?

A piómetra ocorre após exisitirem alterações hormonais no ciclo reprodutivo de uma cadela. E normalmente, entre 2 a 8 semanas após o cio.

Há 3 factores decisivos para que se desenvolva uma piómetra:

  • Após o estro (uma das fases do cio de uma cadela), a progesterona permanece elevada levando a um engrossamento da parede uterina. Ao fim de vários anos, com cios consecutivos sem gradivez associada, o útero continua a engrossar criando um ambiente perfeito para o crescimento bacteriano.
  • Os músculos uterinos deixam também de conseguir contrair devidamente, levando por sua vez, a que não se consiga eliminar correctamente os fluídos que vão sendo acumulados.
  • Durante o cio, as células de defesa normais que combatem infecções, não entram no útero para permitir, numa situação normal, que o esperma do cão possa entrar no tracto reprodutivo da cadela sem ser destruído pelo seu sistema imunitário – logo, numa piómetra, as bactérias estão a crescer, sem serem destruídas.

As bactérias entram para o útero através do cérvix, que se encontra relaxado durante o estro, permitindo a passagem de bactérias existentes na vagina. Em situações normais, o útero preveniria que a infecção se prolongasse, contudo, com os 3 factores que descrevi antes, ficam reunidas as condicções todas para que o crescimento bacteriano ocorra.

ATENÇÃO: Os medicamentos à base de hormonas sexuais – como o caso das pílulas, vão mimetizar estes acontecimentos e fazer com que as piómetras ocorram sem ser pela idade, pelo que fêmeas que estejam a fazer tratamentos reprodutivos devem ser cautolosamente vigiadas.

Como podemos classificar as piómetras?

As piómetras podem ser classificadas em dois tipos:

  • Abertas – O cérvix permanece aberto, pelo que as secreções uterinas podem drenar. Representa aproximadamente 85% dos casos. Há presença de corrimento vaginal purulento (amarelo-esverdeado), com mau odor;
  • Fechadas – O cérvix fica obstruído devido à presença de nódulos na parede uterina, pelo que as secreções não podem drenar e acabam por se acumular. Nestes casos, não se visualizam corrimentos anormais. É a situação mais grave, quer pela identificação mais tardia pelos tutores de doença, quer pelo risco de ruptura uterina que põe em risco a vida do animal;

Quais os sinais a que devem estar atentos?

A sintomatologia varia de acordo com o tipo de piómetra, pois, podemos ter ou não corrimento assim como se pode verificar ou não, a distensão abdominal.

No entanto, alguns sintomas são gerais para as duas piómetras e a maior parte das cadelas apresenta:

  • Diminuição ou perda de apetite
  • Febre
  • Aumento da ingestão de água e consequentemente – maior produção de urina
  • Perda de peso
  • Vómitos
  • Prostração
  • Desidratação

Como é realizado o diagnóstico?

O diagnóstico é realizado pelo seu médico veterinário tendo como base os sinais clínicos e exames complementares: análises sanguíneas, raio-x e/ou ecografia abdominal para visualizar o aumento das dimensões uterinas.

Em caso de suspeita o que devo fazer? É uma situação urgente?

Sim, deve-se dirigir com o máximo de brevidade possível a um médico veterinário. As cadelas que não são tratadas morrem por septicémia.

Qual é o tramanento adequado?

O tratamento de eleição é a remoção cirúrgica do útero e dos ovários –
ovariohisterectomia. Em primeiro lugar a cadela deve ser internada e estabilizada antes do procedimento cirúrgico, através de monitorização atenta, fluidoterapia e antibioterapia.

 

Por isso lembre-se sempre, caso não tencione que a sua cadela seja reprodutora, a esterilização é o melhor método preventivo para que esta situação não ocorra 😊

 

Ana Pinto

Médica Veterinária de Animais de Companhia

Carraças

O que é uma carraça?

As carraças são ectoparasitas, ou seja, parasitas externos que se alimentam do sangue do hospedeiro, isto é, do animal que picam. Existem diversas espécies de carraças, sendo que em Portugal, as mais comuns são Ixodes ricinus, Dermacentor reticulatus e Rhipicephalus sanguineus.
O ciclo de vida deste parasita é dividido em três fases: a larva, a ninfa e o adulto, que é a forma mais conhecida e a que pica os animais. É durante este processo que pode transmitir diversas patologias, como irá ser discutido seguidamente. Se identificar alguma carraça no seu animal, deve eliminá-la o mais rapidamente possível e de forma adequada.

Em que altura são mais frequentes?

As carraças são parasitas que gostam de climas quentes, pelo que são mais comuns na primavera e no verão. No entanto, como o clima está cada vez mais incerto, podem surgir em qualquer altura do ano.

 

Que doenças são mais transmitidas por carraças?

Além da reação local que pode existir após a picada da carraça, existem diversas patologias que podem ser transmitidas aos nossos animais através da picada da mesma, sendo que se destacam:

  • Babesiose: a Babesia spp. é um protozoário que pode afetar diversas espécies de animais e até humanos, sendo responsável por causar a destruição dos eritrócitos (glóbulos vermelhos) causando anemia, febre e prostração, entre outros.

 

  • Erliquiose: doença causada por uma bactéria chamada Erlichia canis que afeta os cães e que é responsável pela destruição dos glóbulos brancos. Esta patologia pode causar também febre e prostração, anorexia, hemorragias, cegueira e alterações neurológicas.

 

  • Doença de Lyme: patologia causada por uma bactéria chamada Borrelia burgdorferi que afeta animais e também o ser humano. Os principais sinais são dores articulares, dificuldades de locomoção, podendo surgir também perda de apetite e gânglios linfáticos aumentados.

 

Como posso combater as carraças?

A prevenção é muito importante ao longo de todo o ano, sendo que nas alturas de maior prevalência, deve ser seguida à risca.

Existem diversas formas de combater a picada do animal:

  • Pipetas desparasitantes: normalmente atuam em carraças, pulgas e mosquitos, tendo ainda uma ação repelente.
  • Comprimidos desparasitantes: protegem apenas de pulgas e carraças, tendo duração mensal ou trimestral, não têm acção repelente, apenas eliminam a carraça quando esta pica o animal
  • Coleira desparasitante: Elimina pulgas, carraças e mosquitos, exercendo também uma ação repelente. Tem uma duração maior, regra geral entre 4 a 8 meses.

Assim sendo, o mais importante é que proteja o seu animal de companhia e que mantenha sempre a desparasitação externa atualizada! 🙂

 

Ana Cláudia Gonçalves

Médica Veterinária de Animais de Companhia

Febre do Shar Pei: o que é e como tratar?

O que é a febre do Shar Pei?

A febre familiar do Shar Pei é uma doença inflamatória hereditária, que surge devido a uma mutação genética responsável pela produção em excesso de ácido hialurónico (que posteriormente irá provocar a produção de mediadores inflamatórios). A doença manifesta-se normalmente antes dos 18 meses de idade.

Quais os principais sinais clínicos?

  • Episódios de febre que duram cerca de 24 a 48 horas e que provocam perda de apetite e prostração;
  • Artrite (50% dos cães desenvolve inchaço e inflamação à volta das articulações, principalmente no tarso, durante os episódios febris);
  • Dermatite e otites recorrentes;
  • Amiloidose sistémica.

Como é diagnosticada?

Perante episódios de febre recorrente, o médico veterinário assistente irá realizar um conjunto de exames clínicos para descartar outras causas para a presença de febre. Em cães de raça Shar Pei, a inexistência de outras causas para o aparecimento de febre, o tipo de sinais clínicos presentes para além da febre e a tipologia da febre (recorrente e que se resolve em 24 a 36 horas) são indicadores para o diagnóstico de Febre Familiar do Shar Pei.

Tratando-se de uma patologia hereditária, com envolvimento genético, é possível a realização de testes genéticos que permitem a identificação de uma mutação responsável pela doença. O exame é de simples execução e permite aumentar a força do diagnóstico e apresenta também um papel prognóstico: o tipo de mutação pode indicar uma severidade maior ou menor da doença.

Os Shar Pei com a doença podem ter uma vida normal?

A resposta é sim. Caso não exista amiloidose associada a falha hepática ou renal, há muitos cães com a doença que têm uma vida normal entre episódios inflamatórios. A frequência dos episódios inflamatórios e de febre varia de cão para cão.

Existe cura? Como deve ser feito o acompanhamento destes casos?

Não existe cura definitiva para a doença. Animais com febre podem beneficiar da toma de medicação anti-inflamatória durante os episódios de febre e/ou artrite. Caso apresentem outras manifestações, como otites ou dermatites, o tratamento deve ser direcionado para o problema de pele, muitas vezes com recurso a produtos tópicos.

Os cães com suspeita de Febre Familiar devem ser seguidos de forma regular no veterinário para que a doença seja acompanhada e para que sejam antevistos sinais de aparecimento de amiloidose, concomitantemente.

A alimentação e o reforço do sistema imunitário podem desempenhar um papel protetor no aparecimento de episódios inflamatórios. Animais com a patologia devem fazer uma alimentação equilibrada, sem excessos proteicos ou calóricos, com proteína facilmente digestível e com alimentos e suplementos que ajudem a fortalecer o sistema imunitário e a barreira cutânea (como ácidos gordos ómega 3 e 6). Apesar de o maneio alimentar poder ser uma mais valia, não existem estudos que comprovem cientificamente o papel direto da alimentação na evolução e manifestação da doença.

A doença pode trazer complicações?

Sim. Animais com a doença estão sujeitos a processos inflamatórios que em alguns casos são constantes e uma percentagem significativa dos Shar Pei com febre familiar têm amiloidose associada. A amiloidose pode provocar alterações hepáticas ou renais, que com o tempo podem deteriorar a função destes órgãos, levando a insuficiência renal e/ou hepática grave que põe em risco a vida.

O meu cão é Shar Pei e está com febre: e agora?

Considera-se que o cão está com febre quando a temperatura retal é superior a 39º-39.4ºC. Tal como nos outros cães, também nos cães de raça Shar Pei a febre pode ser motivada por variadas causas, desde processos inflamatórios a processos infecciosos ou até neoplásicos. Isto quer dizer que o facto do seu amigo Shar Pei estar com febre, não significa que se trate de febre familiar do Shar Pei.

Caso a febre seja persistente e venha acompanhada de outros sinais clínicos como perda de apetite ou prostração, o animal deve ser visto pelo médico veterinário para que a causa da febre possa ser diagnosticada e instituído tratamento direcionado.

 

Perante qualquer episódio febril, não deve medicar o seu amigo de quatro patas. Deve levá-lo a consulta para que o motivo da febre seja diagnosticado. Se suspeitar de febre (notar o seu patudo mais quente, com falta de apetite ou prostrado), pode medir a temperatura retal em casa (veja aqui como).

Daniela Leal

Médica Veterinária

 

 

O meu cão foi picado por uma abelha: o que fazer

Para as abelhas, o tamanho e o movimento de um cão são alarmantes e representam perigo. Quando elas se sentem ameaçadas, podem vingar-se usando o seu ferrão. Uma picada de abelha pode causar nos animais, uma reação semelhante à provocada em humanos. Num primeiro instante existe dor forte causada pela entrada do ferrão na pele e também pela acção local do seu veneno. No entanto, o grande problema ocorre quando o veneno causa uma reação alérgica exuberante que pode evoluir para uma reação anafilática.

Nem todos os patudos desenvolvem uma reação alérgica perante a picada de uma abelha, mas existe uma grande probabilidade disso acontecer, pelo que devemos estar alerta para alguns sinais!

Devido à curiosidade dos nossos animais, a maioria das picadas ocorre na boca, face e patas. Numa fase inicial pós-picada, ocorrem frequentemente episódios de comichão, salivação excessiva, vómito e inchaço da face (angioedema), boca ou outras partes do corpo. O inchaço pode ser generalizado ou sob a forma de pápulas (pequenos altinhos espalhados pelo corpo). Se a alergia evoluir para uma reação anafilática, as vias respiratórias podem inchar também culminando em dificuldades respiratórias graves, que podem levar à morte.

Não entre em pânico! Vamos ajudar.

Em primeiro lugar, transmita calma ao seu patudo… desta forma ele não irá ficar mais ansioso. O desconforto e a dor que sente com a picada já são suficientes! Se conseguir visualizar o ferrão, pode removê-lo cuidadosamente, mas não use uma pinça! O ideal será usar um papel rígido ou cartão neste processo, para não libertar ainda mais veneno dentro do organismo do animal. Posteriormente desinfecte a zona da picada com sabão neutro e água, a fim de evitar infecções secundárias. Deve aplicar gelo no local, embrulhado num pano, para atenuar a dor. Fique atento e leve imediatamente o seu patudo ao Médico-Veterinário, de modo a ser avaliado e receber o tratamento necessário para que tudo corra pelo melhor.

É importante ter em atenção que as complicações de uma picada de abelha podem demorar segundos ou horas, mas serem fatais! Com cuidados médicos adequados, o prognóstico é bastante favorável, pelo que seja cuidadoso!!

 

Ana Matias

Médica Veterinária