Anisocoria no cão: o que pode significar?

Em que consiste?

A anisocoria consiste na assimetria entre as pupilas. Uma das pupilas pode estar miótica (mais pequena) ou midriática (maior), apresentado um tamanho diferente da pupila contralateral (do outro olho).

Em condições normais, as pupilas dos cães podem sofrer constrição ou dilatação, ficando mais pequenas ou maiores, conforme a exposição à luz. Em condições de muita luminosidade, as pupilas ficam ambas mais pequenas para que o olho receba menos luz. As pupilas também se podem dilatar quando o animal está em situações de medo, por exemplo.

Quando o tamanho é bastante diferente entre ambas, regra geral existe uma causa por trás dessa assimetria que deve ser analisada pelo médico-veterinário.

Quais são as causas?

As principais causas da anisocoria no cão são causas oftalmológicas e neurológicas, entre as quais:

  • Lesões na córnea, como úlceras de córnea, que podem provocar dor e uveíte reflexa (nestes casos o animal pode apresentar corrimento ocular e o olho com blefarospasmo, “mais fechado”);
  • Uveíte (a pupila no olho afetado fica menor);
  • Glaucoma (a pupila no olho afetado fica maior);
  • Lesões na retina, como descolamento de retina (estes casos podem ser acompanhados de cegueira);
  • Tumores intra-oculares;
  • Trauma ocular;
  • Neurite ótica (inflamação do nervo ótico);
  • Lesão (seja traumática, hemorrágica ou tumoral) a nível do trato ótico ou do sistema nervoso central;
  • Síndrome de Horner (alteração neurológica em que um dos olhos está caído e com a terceira pálpebra visível, para além de se notar a pupila mais pequena).

Dependendo da causa, a anisocoria pode ser acompanhada por outros sinais clínicos, como olho vermelho, olho mais fechado ou alterações da fenda palpebral.

 

Diagnóstico

O diagnóstico é feito mediante avaliação oftalmológica e neurológica, com avaliação do fundo do olho e do reflexo pupilar (ver se a pupila responde mediante estímulo de luz). Dependendo do caso, pode ser necessária a realização de exames mais complexos, como TAC ou Ressonância Magnética.

Nestes casos, o patudo deve ser visto pelo médico veterinário assim que possível.

Tratamento e prognóstico

Tanto o tratamento como o prognóstico variam consoante a causa. É necessário identificar a causa da anisocoria para proceder ao tratamento posterior.

 

Daniela Leal

Médica Veterinária

Olhos vermelhos em cães: quais são as principais causas?

Como notar o problema?

Quando nos referimos a olhos vermelhos em cães, é importante distinguir em que zona do olho é que é notada a vermelhidão:

  • Na conjuntiva: a conjuntiva, presente no interior da pálpebra superior e inferior, tem uma cor rosada. Em patologias oculares (conjuntivites e não só) esta zona pode ficar hiperémica (muito vermelha).

 

  • Na esclera: a esclera é a zona branca do olho. Em algumas patologias oculares, notamos que esta zona se encontra com os vasos sanguíneos ingurgitados.

 

  • Na câmara anterior (“zona interior do olho”): neste caso, olhamos para o patudo e vemos que o interior do olho, por trás da córnea (zona transparente do olho), está vermelho. Por vezes, em situações mais graves (como trauma ocular), podemos mesmo ver uma acumulo de sangue nesta zona.

Conseguimos notar o problema – olhos vermelhos – observando de perto o olho do patudo. Perante qualquer uma das situações é importante que o animal seja visto em consulta pelo médico-veterinário.

Quais as possíveis causas?

 

  • Conjuntivite – A conjuntivite é a inflamação da conjuntiva (zona interior das pálpebras, que se encontra muito vermelha nestes casos). Pode ter várias causas subjacentes, como infeções bacterianas ou víricas ou até causas alérgicas. É uma causa bastante comum de “olho vermelho” nos cães.

 

  • Úlcera de córnea – A úlcera de córnea em cães é uma lesão na córnea (zona transparente do olho), provoca inflamação (queratite) e podendo deixar a conjuntiva hiperémica (vermelha).

 

 

  • Glaucoma – Caracterizado pelo aumento da pressão intraocular, pode provocar “olhos vermelhos” em cães. Cães com glaucoma agudo podem apresentar os vasos oculares (episclerais e conjuntivais) bastante congestionados, conferindo ao olho um aspeto muito vermelho.

 

  • Uveíte – Caracterizada por uma inflamação da úvea (uma estrutura ocular), a uveíte pode ter diversas causas na sua origem (trauma ocular, patologias sistémicas, neoplasias oculares, etc.). Cães com uveíte podem apresentar os vasos sanguíneos oculares ingurgitados e a conjuntiva muito vermelha (hiperémica).

 

  • Trauma ocular – Qualquer trauma ocular pode provocar alterações no olho, deixando-o muitas vezes com a conjuntiva muito vermelha e até com hemorragia no interior do olho, que surge devido à lesão ocular.

Como diagnosticar e tratar?

O tratamento dos olhos vermelhos em cães vai depender da causa do problema. Através da história clínica e do exame oftalmológico e, por vezes, recorrendo a exames complementares de diagnóstico, é possível encontrar a causa por trás do sinal clínico notado pelo proprietário.

Patologias como conjuntivites bacterianas são normalmente simples de tratar, e têm uma recuperação rápida, enquanto que patologias como o glaucoma podem ter um prognóstico mais reservado (dependendo do tipo de glaucoma) e necessitam de acompanhamento contínuo.

Daniela Leal

Médica Veterinária

Febre do Shar Pei: o que é e como tratar?

O que é a febre do Shar Pei?

A febre familiar do Shar Pei é uma doença inflamatória hereditária, que surge devido a uma mutação genética responsável pela produção em excesso de ácido hialurónico (que posteriormente irá provocar a produção de mediadores inflamatórios). A doença manifesta-se normalmente antes dos 18 meses de idade.

Quais os principais sinais clínicos?

  • Episódios de febre que duram cerca de 24 a 48 horas e que provocam perda de apetite e prostração;
  • Artrite (50% dos cães desenvolve inchaço e inflamação à volta das articulações, principalmente no tarso, durante os episódios febris);
  • Dermatite e otites recorrentes;
  • Amiloidose sistémica.

Como é diagnosticada?

Perante episódios de febre recorrente, o médico veterinário assistente irá realizar um conjunto de exames clínicos para descartar outras causas para a presença de febre. Em cães de raça Shar Pei, a inexistência de outras causas para o aparecimento de febre, o tipo de sinais clínicos presentes para além da febre e a tipologia da febre (recorrente e que se resolve em 24 a 36 horas) são indicadores para o diagnóstico de Febre Familiar do Shar Pei.

Tratando-se de uma patologia hereditária, com envolvimento genético, é possível a realização de testes genéticos que permitem a identificação de uma mutação responsável pela doença. O exame é de simples execução e permite aumentar a força do diagnóstico e apresenta também um papel prognóstico: o tipo de mutação pode indicar uma severidade maior ou menor da doença.

Os Shar Pei com a doença podem ter uma vida normal?

A resposta é sim. Caso não exista amiloidose associada a falha hepática ou renal, há muitos cães com a doença que têm uma vida normal entre episódios inflamatórios. A frequência dos episódios inflamatórios e de febre varia de cão para cão.

Existe cura? Como deve ser feito o acompanhamento destes casos?

Não existe cura definitiva para a doença. Animais com febre podem beneficiar da toma de medicação anti-inflamatória durante os episódios de febre e/ou artrite. Caso apresentem outras manifestações, como otites ou dermatites, o tratamento deve ser direcionado para o problema de pele, muitas vezes com recurso a produtos tópicos.

Os cães com suspeita de Febre Familiar devem ser seguidos de forma regular no veterinário para que a doença seja acompanhada e para que sejam antevistos sinais de aparecimento de amiloidose, concomitantemente.

A alimentação e o reforço do sistema imunitário podem desempenhar um papel protetor no aparecimento de episódios inflamatórios. Animais com a patologia devem fazer uma alimentação equilibrada, sem excessos proteicos ou calóricos, com proteína facilmente digestível e com alimentos e suplementos que ajudem a fortalecer o sistema imunitário e a barreira cutânea (como ácidos gordos ómega 3 e 6). Apesar de o maneio alimentar poder ser uma mais valia, não existem estudos que comprovem cientificamente o papel direto da alimentação na evolução e manifestação da doença.

A doença pode trazer complicações?

Sim. Animais com a doença estão sujeitos a processos inflamatórios que em alguns casos são constantes e uma percentagem significativa dos Shar Pei com febre familiar têm amiloidose associada. A amiloidose pode provocar alterações hepáticas ou renais, que com o tempo podem deteriorar a função destes órgãos, levando a insuficiência renal e/ou hepática grave que põe em risco a vida.

O meu cão é Shar Pei e está com febre: e agora?

Considera-se que o cão está com febre quando a temperatura retal é superior a 39º-39.4ºC. Tal como nos outros cães, também nos cães de raça Shar Pei a febre pode ser motivada por variadas causas, desde processos inflamatórios a processos infecciosos ou até neoplásicos. Isto quer dizer que o facto do seu amigo Shar Pei estar com febre, não significa que se trate de febre familiar do Shar Pei.

Caso a febre seja persistente e venha acompanhada de outros sinais clínicos como perda de apetite ou prostração, o animal deve ser visto pelo médico veterinário para que a causa da febre possa ser diagnosticada e instituído tratamento direcionado.

 

Perante qualquer episódio febril, não deve medicar o seu amigo de quatro patas. Deve levá-lo a consulta para que o motivo da febre seja diagnosticado. Se suspeitar de febre (notar o seu patudo mais quente, com falta de apetite ou prostrado), pode medir a temperatura retal em casa (veja aqui como).

Daniela Leal

Médica Veterinária